Você já reparou que hoje em dia é praticamente impossível viver sem aquela vibração insistente no bolso, o som das notificações que interrompe qualquer momento, seja ele sagrado ou mundano? Parece que fomos promovidos de simples seres humanos a gerentes de uma central de atendimento pessoal, onde cada curtida, comentário ou “direct” exige resposta imediata. O celular apita e lá estamos nós, puxados de volta ao frenesi virtual. Os antigos diriam que viramos escravos das máquinas; eu diria que somos funcionários do mês, trabalhando para algoritmos que nem salário pagam.
Se antes as pessoas buscavam paz de espírito nas montanhas ou em retiros espirituais, hoje o alívio se encontra em uma decisão audaciosa: desligar o Wi-Fi. É curioso como essa ação tão trivial se tornou um ato de rebeldia, quase subversivo. Desligar a internet significa declarar, ainda que temporariamente, a independência de todo um sistema construído para nos manter presos em uma rede em que a vida não é medida em anos, mas em seguidores e visualizações. A ironia é que a maioria de nós passa tanto tempo tentando se destacar na multidão digital, que acaba se perdendo na própria imagem refletida nos pixels. É como se olhássemos para o espelho e víssemos outra pessoa – uma versão editada, retocada e, claro, aprovada pelos filtros.
E as interações interpessoais? Bom, vamos ser sinceros, já não se fala mais "bom dia" sem acrescentar um emoji sorridente no final, para garantir que a outra pessoa saiba que você realmente está de bom humor. O uso constante desses símbolos acabou transformando a linguagem. É como se os emojis fossem as novas vírgulas e os “likes” as novas risadas. É estranho pensar que a comunicação agora tem intermediários digitais, pequenos ícones que interpretam o que nossas palavras não conseguem expressar. Acontece que essa comunicação veloz e cheia de atalhos talvez esteja nos deixando um pouco menos humanos e um pouco mais robóticos. Afinal, se falamos por abreviações, reagimos com "likes" e discutimos por memes, onde fica a nuance, a entonação, o toque de uma conversa verdadeira?
E se, por acaso, você se desconectar por algumas horas, prepare-se para as consequências: uma enxurrada de mensagens perguntando se está tudo bem, porque sumiu, se aconteceu alguma coisa. Parece que a vida offline virou um mistério, uma raridade de museu. Antigamente, ninguém se preocupava se você estava ausente das redes sociais. Aliás, mal sabíamos que o outro tinha algo a dizer além do bom e velho “como vai?”. Hoje, cada passo é registrado e, se não for, é quase como se não tivesse acontecido. Outro dia li um estudo dizendo que as notificações constantes são uma das principais causas de estresse nos dias de hoje. Faz sentido. O tempo que gastamos conferindo se aquele post atingiu os likes esperados poderia ser usado em uma boa leitura, em uma conversa de verdade, ou até em uma soneca – porque até o descanso foi invadido por alertas vibratórios.
E então vem a nostalgia dos tempos mais "offline", quando a vida era uma sucessão de acontecimentos sem a necessidade de compartilhamento instantâneo. Tempos em que a ansiedade não era causada pelo número de seguidores ou pelo algoritmo de recomendação que resolveu ignorar seu último post. Não dá para evitar aquele suspiro saudosista ao lembrar dos orelhões, das cartas escritas à mão e até da televisão que só tinha cinco canais – e olha que, naquele tempo, a gente ainda reclamava da programação.
Dizem que vivemos na era da hiperconectividade, mas será que estamos realmente conectados? Talvez o que temos é uma ilusão de proximidade, uma rede de contatos que vai de um continente ao outro, mas que, paradoxalmente, nos deixa ainda mais sozinhos. Afinal, não importa quantas curtidas uma foto receba, há sempre aquele vazio que nenhum feed de notícias consegue preencher. É quase como tentar matar a sede com água salgada: quanto mais bebemos, mais sede sentimos.
Fazendo uma pausa para refletir, é curioso imaginar o que diríamos aos nossos "eus" de alguns anos atrás, ao ver os adultos de hoje encantados por telas. Talvez uma frase sarcástica surgisse na mente: "E desde quando a vida cabe num stories?" Porque, no fundo, é isso mesmo. A vida não deveria ser medida em métricas digitais, e sim na qualidade dos nossos momentos offline. Ah, quem dera pudéssemos resgatar a simplicidade dos tempos analógicos sem nos perder na pressa de atualizar o status.
Então,
da próxima vez que o celular vibrar, pense duas vezes antes de correr para ver
quem foi. Pode ser que, ao ignorar a notificação, você descubra algo mais
interessante do que qualquer novidade online: o prazer de estar, de fato,
desconectado.