sexta-feira, 11 de outubro de 2024

DESCONECTE-SE PARA CONECTAR: A VIDA NÃO CABE EM PIXELS

 



Você já reparou que hoje em dia é praticamente impossível viver sem aquela vibração insistente no bolso, o som das notificações que interrompe qualquer momento, seja ele sagrado ou mundano? Parece que fomos promovidos de simples seres humanos a gerentes de uma central de atendimento pessoal, onde cada curtida, comentário ou “direct” exige resposta imediata. O celular apita e lá estamos nós, puxados de volta ao frenesi virtual. Os antigos diriam que viramos escravos das máquinas; eu diria que somos funcionários do mês, trabalhando para algoritmos que nem salário pagam.

Se antes as pessoas buscavam paz de espírito nas montanhas ou em retiros espirituais, hoje o alívio se encontra em uma decisão audaciosa: desligar o Wi-Fi. É curioso como essa ação tão trivial se tornou um ato de rebeldia, quase subversivo. Desligar a internet significa declarar, ainda que temporariamente, a independência de todo um sistema construído para nos manter presos em uma rede em que a vida não é medida em anos, mas em seguidores e visualizações. A ironia é que a maioria de nós passa tanto tempo tentando se destacar na multidão digital, que acaba se perdendo na própria imagem refletida nos pixels. É como se olhássemos para o espelho e víssemos outra pessoa – uma versão editada, retocada e, claro, aprovada pelos filtros.

E as interações interpessoais? Bom, vamos ser sinceros, já não se fala mais "bom dia" sem acrescentar um emoji sorridente no final, para garantir que a outra pessoa saiba que você realmente está de bom humor. O uso constante desses símbolos acabou transformando a linguagem. É como se os emojis fossem as novas vírgulas e os “likes” as novas risadas. É estranho pensar que a comunicação agora tem intermediários digitais, pequenos ícones que interpretam o que nossas palavras não conseguem expressar. Acontece que essa comunicação veloz e cheia de atalhos talvez esteja nos deixando um pouco menos humanos e um pouco mais robóticos. Afinal, se falamos por abreviações, reagimos com "likes" e discutimos por memes, onde fica a nuance, a entonação, o toque de uma conversa verdadeira?

E se, por acaso, você se desconectar por algumas horas, prepare-se para as consequências: uma enxurrada de mensagens perguntando se está tudo bem, porque sumiu, se aconteceu alguma coisa. Parece que a vida offline virou um mistério, uma raridade de museu. Antigamente, ninguém se preocupava se você estava ausente das redes sociais. Aliás, mal sabíamos que o outro tinha algo a dizer além do bom e velho “como vai?”. Hoje, cada passo é registrado e, se não for, é quase como se não tivesse acontecido. Outro dia li um estudo dizendo que as notificações constantes são uma das principais causas de estresse nos dias de hoje. Faz sentido. O tempo que gastamos conferindo se aquele post atingiu os likes esperados poderia ser usado em uma boa leitura, em uma conversa de verdade, ou até em uma soneca – porque até o descanso foi invadido por alertas vibratórios.

E então vem a nostalgia dos tempos mais "offline", quando a vida era uma sucessão de acontecimentos sem a necessidade de compartilhamento instantâneo. Tempos em que a ansiedade não era causada pelo número de seguidores ou pelo algoritmo de recomendação que resolveu ignorar seu último post. Não dá para evitar aquele suspiro saudosista ao lembrar dos orelhões, das cartas escritas à mão e até da televisão que só tinha cinco canais – e olha que, naquele tempo, a gente ainda reclamava da programação.

Dizem que vivemos na era da hiperconectividade, mas será que estamos realmente conectados? Talvez o que temos é uma ilusão de proximidade, uma rede de contatos que vai de um continente ao outro, mas que, paradoxalmente, nos deixa ainda mais sozinhos. Afinal, não importa quantas curtidas uma foto receba, há sempre aquele vazio que nenhum feed de notícias consegue preencher. É quase como tentar matar a sede com água salgada: quanto mais bebemos, mais sede sentimos.

Fazendo uma pausa para refletir, é curioso imaginar o que diríamos aos nossos "eus" de alguns anos atrás, ao ver os adultos de hoje encantados por telas. Talvez uma frase sarcástica surgisse na mente: "E desde quando a vida cabe num stories?" Porque, no fundo, é isso mesmo. A vida não deveria ser medida em métricas digitais, e sim na qualidade dos nossos momentos offline. Ah, quem dera pudéssemos resgatar a simplicidade dos tempos analógicos sem nos perder na pressa de atualizar o status.

Então, da próxima vez que o celular vibrar, pense duas vezes antes de correr para ver quem foi. Pode ser que, ao ignorar a notificação, você descubra algo mais interessante do que qualquer novidade online: o prazer de estar, de fato, desconectado.

sábado, 5 de outubro de 2024

POR UM MUNDO COM MAIS MAFALDAS


Recentemente, ao ver uma foto no Instagram, fui transportado de volta a uma viagem que fiz há dois anos a Buenos Aires. Hospedei-me em San Telmo, um bairro vibrante, repleto de história e cultura. Por sorte, meu hotel ficava na mesma rua onde acontece a famosa feira do bairro. E, em uma das esquinas dessa rua, deparei-me com as estátuas de Mafalda e seus amigos – Susanita e Manolito – personagens que atraem filas de turistas, ansiosos por uma foto ao lado dessas figuras que marcaram gerações.

Curioso é que, não muito distante dali, está a Casa Rosada, sede do governo argentino. O contraste é gritante: um símbolo de poder e autoridade frente a uma criança de cabelos negros e pensamentos subversivos, que jamais se calou diante das injustiças. Dá até para imaginar o que perguntaria ela ao encarar o governo argentino atual: "Por que os líderes sempre prometem soluções mágicas, mas se esquecem das pessoas no caminho?" Ou então: "O que significa liberdade para um país que parece cada vez mais preso às suas crises?" Com certeza, ela não deixaria passar essas contradições. 

Essa personagem foi criada em 1964, e até hoje seu impacto é imenso. Curiosamente, Quino, seu criador, parou de desenhá-la em 1973, muito antes de sua morte em 2020. No entanto, suas tiras continuam sendo publicadas e redescobertas por novas gerações, mantendo sua importância ao longo dos anos. Ela não é apenas uma garotinha de quadrinhos; é quase um espírito livre que incomoda os poderosos. Não aceita explicações prontas, não tolera injustiças e questiona tudo com aquele olhar inocente, porém repleto de sabedoria. Verdadeiras pérolas de crítica social e política. E o mais interessante: elas são atemporais. A cada nova crise, a cada nova liderança política que surge, as reflexões de Mafalda voltam a fazer sentido.

No fundo, o que a torna tão relevante é sua capacidade de enxergar o mundo como ele realmente é, sem as ilusões que os adultos criam para si mesmos. Se tivéssemos mais Mafaldas por aí, talvez as coisas fossem diferentes: menos cinismo, mais perguntas; menos promessas, mais ação; menos discursos inflamados, mais empatia.

Ou talvez não. Quem sabe, com tantas perguntas incômodas, a pobre Mafalda acabasse sendo nomeada ministra da desilusão, encarregada de lembrar a todos que a solução do mundo não vem em pacotes prontos e que "desculpas esfarrapadas" nunca foram item de primeira necessidade. Mas, enquanto não a nomeiam, seguimos por aqui, num mundo que insiste em ter mais políticos que Mafaldas.

sábado, 28 de setembro de 2024

O PREÇO DO MILHÃO: QUANDO O FLAMENGO NÃO PAGA

 

No dia 26 de Novembro, o Flamengo foi eliminado da Libertadores. De novo. E, se você cruzou o caminho de algum flamenguista, certamente percebeu: o mundo deles parecia ter desmoronado. O ar estava denso, os olhares perdidos, como se a vida tivesse lhes pregado uma peça inesperada, um daqueles tapas que deixam a alma zonza. Mas, como assim? O Flamengo, o milionário Flamengo, cair diante do modesto Peñarol? Há quem nem saiba apontar o Uruguai no mapa, mas os rubro-negros não deixaram passar: geograficamente, o país fica muito abaixo do patamar de quem ostenta um elenco avaliado em milhões de euros. Vergonha, dizem eles, com o peso da frustração.

A grande ironia aqui é que, no hino do clube, o mantra é claro: "vencer, vencer, vencer!" – sem pausa para fôlego, sem espaço para o adversário. Parece até que, se o Flamengo não ganha, alguma coisa no universo se rompe. E é exatamente esse ponto que torna a situação interessante. Se o único destino possível é a vitória, a derrota vira uma espécie de aberração. Quase como se os deuses do futebol tivessem cometido um erro crasso. Mas o hino do Flamengo discorda. Para eles, a lógica é simples: “tem” que vencer.

Agora, que o Flamengo é milionário, ninguém discorda. O time é uma espécie de tubarão das finanças, nadando em águas cheias de zeros. Mas o dinheiro, por mais impressionante que seja no balanço, não entra em campo. Nem marca gol. Aliás, até parece que o dinheiro, quando muito exibido, distrai. Ilude. Dá a falsa impressão de invencibilidade. Só que, no futebol, não adianta. Não existe saldo bancário que faça o juiz apitar a seu favor. E é aí que o tal respeito ao adversário faz falta. E como faz!

Lembro aqui de um momento impagável da série "Os Gil". Gilberto Gil, torcedor declarado do Fluminense, homem de sabedoria, ouve de seus filhos, flamenguistas, depois de uma certa derrota do rubro-negro: "Ah, mas como é que pode perder desse time? Eles não têm nem metade do nosso elenco!". Gil, irritado, comenta: "Vocês têm que aprender a perder. Vocês acham que, porque têm mais dinheiro, isso é garantia de ganhar? O outro lado também joga. Se apenas um time vence, isso não é esporte, é outra coisa." Pronto. Mais um tapa de sabedoria no ego inflado de quem acha que o mundo gira em torno do valor de mercado.

A metáfora do hino do Flamengo é bonita, triunfante, imponente, mas a realidade trata logo de lembrar que, no campo, são onze contra onze. O Peñarol, pequenino em cifras, mostrou que a grandeza se mede no suor, na bola dividida, na coragem de desafiar o gigante e, por que não, na retranca. Se o Flamengo cai, cai como qualquer outro. Mas, para a torcida, que, de tão acostumada a olhar para cima, nem percebe que ainda está no chão, cada tombo parece uma humilhação sem precedentes.

Talvez o grande erro esteja na expectativa. Afinal, se o hino promete só vitórias, como lidar com o imponderável da derrota? A eliminação virou uma ferida aberta na alma do torcedor, que só consegue ver a perda como uma afronta. Isso porque, para o flamenguista, o time “não pode” perder. É uma espécie de cláusula pétrea, uma verdade inegociável. No entanto, o futebol, esse jogo travesso, adora pegar essas certezas e jogá-las no chão, com gosto.

É sempre bom lembrar que, dentro das quatro linhas, a bola não tem preferências. Ela é livre, democrática, segue seu próprio curso, sem se comprometer com lados ou expectativas. Corre imprevisível, rebate sem aviso e, por vezes, teima em não cruzar a linha final. Quando isso acontece, meu amigo, ah, o flamenguista sente. E, quando o Flamengo perde, o universo parece inclinar-se, como se a gravidade perdesse força. Mas o espetáculo continua, porque futebol, afinal, é isso: um jogo em que só vence quem ousa chutar ao gol, não é, Flamengo?

 

 

DESCONECTE-SE PARA CONECTAR: A VIDA NÃO CABE EM PIXELS

  Você já reparou que hoje em dia é praticamente impossível viver sem aquela vibração insistente no bolso, o som das notificações que interr...