Recentemente, ao ver uma foto no Instagram, fui transportado de volta a uma viagem que fiz há dois anos a Buenos Aires. Hospedei-me em San Telmo, um bairro vibrante, repleto de história e cultura. Por sorte, meu hotel ficava na mesma rua onde acontece a famosa feira do bairro. E, em uma das esquinas dessa rua, deparei-me com as estátuas de Mafalda e seus amigos – Susanita e Manolito – personagens que atraem filas de turistas, ansiosos por uma foto ao lado dessas figuras que marcaram gerações.
Curioso é que, não muito distante dali, está a Casa Rosada, sede do governo argentino. O contraste é gritante: um símbolo de poder e autoridade frente a uma criança de cabelos negros e pensamentos subversivos, que jamais se calou diante das injustiças. Dá até para imaginar o que perguntaria ela ao encarar o governo argentino atual: "Por que os líderes sempre prometem soluções mágicas, mas se esquecem das pessoas no caminho?" Ou então: "O que significa liberdade para um país que parece cada vez mais preso às suas crises?" Com certeza, ela não deixaria passar essas contradições.
Essa personagem foi criada em 1964, e até hoje seu impacto é imenso. Curiosamente, Quino, seu criador, parou de desenhá-la em 1973, muito antes de sua morte em 2020. No entanto, suas tiras continuam sendo publicadas e redescobertas por novas gerações, mantendo sua importância ao longo dos anos. Ela não é apenas uma garotinha de quadrinhos; é quase um espírito livre que incomoda os poderosos. Não aceita explicações prontas, não tolera injustiças e questiona tudo com aquele olhar inocente, porém repleto de sabedoria. Verdadeiras pérolas de crítica social e política. E o mais interessante: elas são atemporais. A cada nova crise, a cada nova liderança política que surge, as reflexões de Mafalda voltam a fazer sentido.
No fundo, o que a torna tão relevante é sua capacidade de enxergar o mundo como ele realmente é, sem as ilusões que os adultos criam para si mesmos. Se tivéssemos mais Mafaldas por aí, talvez as coisas fossem diferentes: menos cinismo, mais perguntas; menos promessas, mais ação; menos discursos inflamados, mais empatia.
Ou
talvez não. Quem sabe, com tantas perguntas incômodas, a pobre Mafalda acabasse
sendo nomeada ministra da desilusão, encarregada de lembrar a todos que a
solução do mundo não vem em pacotes prontos e que "desculpas
esfarrapadas" nunca foram item de primeira necessidade. Mas, enquanto não
a nomeiam, seguimos por aqui, num mundo que insiste em ter mais políticos que
Mafaldas.
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