sábado, 28 de setembro de 2024

O PREÇO DO MILHÃO: QUANDO O FLAMENGO NÃO PAGA

 

No dia 26 de Novembro, o Flamengo foi eliminado da Libertadores. De novo. E, se você cruzou o caminho de algum flamenguista, certamente percebeu: o mundo deles parecia ter desmoronado. O ar estava denso, os olhares perdidos, como se a vida tivesse lhes pregado uma peça inesperada, um daqueles tapas que deixam a alma zonza. Mas, como assim? O Flamengo, o milionário Flamengo, cair diante do modesto Peñarol? Há quem nem saiba apontar o Uruguai no mapa, mas os rubro-negros não deixaram passar: geograficamente, o país fica muito abaixo do patamar de quem ostenta um elenco avaliado em milhões de euros. Vergonha, dizem eles, com o peso da frustração.

A grande ironia aqui é que, no hino do clube, o mantra é claro: "vencer, vencer, vencer!" – sem pausa para fôlego, sem espaço para o adversário. Parece até que, se o Flamengo não ganha, alguma coisa no universo se rompe. E é exatamente esse ponto que torna a situação interessante. Se o único destino possível é a vitória, a derrota vira uma espécie de aberração. Quase como se os deuses do futebol tivessem cometido um erro crasso. Mas o hino do Flamengo discorda. Para eles, a lógica é simples: “tem” que vencer.

Agora, que o Flamengo é milionário, ninguém discorda. O time é uma espécie de tubarão das finanças, nadando em águas cheias de zeros. Mas o dinheiro, por mais impressionante que seja no balanço, não entra em campo. Nem marca gol. Aliás, até parece que o dinheiro, quando muito exibido, distrai. Ilude. Dá a falsa impressão de invencibilidade. Só que, no futebol, não adianta. Não existe saldo bancário que faça o juiz apitar a seu favor. E é aí que o tal respeito ao adversário faz falta. E como faz!

Lembro aqui de um momento impagável da série "Os Gil". Gilberto Gil, torcedor declarado do Fluminense, homem de sabedoria, ouve de seus filhos, flamenguistas, depois de uma certa derrota do rubro-negro: "Ah, mas como é que pode perder desse time? Eles não têm nem metade do nosso elenco!". Gil, irritado, comenta: "Vocês têm que aprender a perder. Vocês acham que, porque têm mais dinheiro, isso é garantia de ganhar? O outro lado também joga. Se apenas um time vence, isso não é esporte, é outra coisa." Pronto. Mais um tapa de sabedoria no ego inflado de quem acha que o mundo gira em torno do valor de mercado.

A metáfora do hino do Flamengo é bonita, triunfante, imponente, mas a realidade trata logo de lembrar que, no campo, são onze contra onze. O Peñarol, pequenino em cifras, mostrou que a grandeza se mede no suor, na bola dividida, na coragem de desafiar o gigante e, por que não, na retranca. Se o Flamengo cai, cai como qualquer outro. Mas, para a torcida, que, de tão acostumada a olhar para cima, nem percebe que ainda está no chão, cada tombo parece uma humilhação sem precedentes.

Talvez o grande erro esteja na expectativa. Afinal, se o hino promete só vitórias, como lidar com o imponderável da derrota? A eliminação virou uma ferida aberta na alma do torcedor, que só consegue ver a perda como uma afronta. Isso porque, para o flamenguista, o time “não pode” perder. É uma espécie de cláusula pétrea, uma verdade inegociável. No entanto, o futebol, esse jogo travesso, adora pegar essas certezas e jogá-las no chão, com gosto.

É sempre bom lembrar que, dentro das quatro linhas, a bola não tem preferências. Ela é livre, democrática, segue seu próprio curso, sem se comprometer com lados ou expectativas. Corre imprevisível, rebate sem aviso e, por vezes, teima em não cruzar a linha final. Quando isso acontece, meu amigo, ah, o flamenguista sente. E, quando o Flamengo perde, o universo parece inclinar-se, como se a gravidade perdesse força. Mas o espetáculo continua, porque futebol, afinal, é isso: um jogo em que só vence quem ousa chutar ao gol, não é, Flamengo?

 

 

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